O Doido e a Morte (Excerto)



(…)
E vinham na asa múrmura da aragem
Bater de palmas, risos de cristal,
Rasgando agudas fendas no Silêncio.
Eram Bruxas malditas, pobres Ninfas,
Amantes do Demónio em vez de Pan;
Amam a noite triste e os ermos sítios…
Trocaram seu antigo amor divino
Pela ironia escura e demoníaca;
E as florestas sagradas e o sol claro
Pelos bócos profundos, pela noite,
Pelos silvais espessos e águas ermas
Que a sombra torna lívidas e mortas,
E onde as cousas noturnas se refletem
Desmaterializadas, reduzidas
Ao seu simples e anímico esqueleto…

E outras Bruxas, em bandos luarentos,
Passavam, no ar, dançando em turbilhão
Com alados Demónios coruscantes…

E o Medo, avô remoto de Phantasmas,
Sombra ancestral de Deus e da Piedade,
Condensava o luar em frias lágrimas,
Marmorizava os fluídos Longes vagos…

As Figuras da Noite, as Creaturas
Do nosso Pensamento, despertavam
Mal ouviam trotar a Morte… E a lâmina
Da sua Fouce ia, em curva, pelo céu
De horizonte a horizonte; e a sua túnica
Parecia manchar toda a Paisagem…

(…)
Teixeira de Pascoais

SALGADO, Vasco - “The Project Gutenberg EBook of O Doido e a Morte, by Teixeira de Pascoais”. Janeiro, 2008 In Teixeira de Pascoaes. Porto: Renascença Portuguesa. 1913 [consult. em: 17/01/17] (Disponível em: 
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